Fui
até a porta do porão e a abri, olhando para baixo no abismo negro com o
qual já estava familiarizada. Afasto meu cabelo loiro dos olhos assim
posso ver cuidadosamente onde piso, tomando cuidado para não tropeçar.
“Você
acredita que já faz três anos desde o dia em que te conheci? Parece que
foi a tanto tempo não é Patrick?” Chego ao fim dos degraus e estico as
mãos para cima procurando a corrente que ligaria a luz. Minhas mãos
vagueiam no ar por alguns segundos antes de sentir o metal frio da
corrente tocando meus dedos. Agarro-a e puxo. Logo a luz preenche o
local, vinda das lâmpadas fosforescentes penduradas no teto.
Meu
porão não era mobiliado. Era um lugar simples onde acumulávamos os
objetos que não queríamos mais. Como era um lugar grande, já acumulava
lixo de uns vinte anos atrás. Tínhamos vivido aqui por muito tempo e o
porão poderia contar toda a nossa história de vida. Olhei para minhas
bonecas quebradas e brinquedos caídos pela escada, coisas da minha
infância. Muito danificados para brincar agora, porém, muito queridos
para serem jogados fora. Passei sobre a pilha de bonecas sem cabeça e
afastei para o lado o cavalo de balanço cuja cabeça estava quebrada pela
metade e coberta com uma mancha marrom que contrastava com o resto do
seu corpo branco.
“Eu
costumava cavalgar esse cavalo como se não houvesse amanhã! Você viu a
minha foto com ele de quando eu era bebê? Vou mostrar pra você depois.”
Passei pelas estantes dos ursinhos de pelúcia e segui para as pilhas de
roupas.
“Como
você pode ter notado minha mãe era uma colecionadora. Acho que ela
nunca jogou fora alguma coisa que eu já tenha usado. Ela guardou todos
os brinquedos, todos os sapatos, todas as roupas... estou surpresa que
não tenha encontrado uma montanha de lenços de papel usados.” Vasculhei
entre a pilha de roupas pretas e vermelhas da minha infância. Apenas
pretas e vermelhas. Nunca usei outras cores. Elas não ficavam bem em mim
como o vermelho e o preto. Mas vermelho era a minha favorita. Quase
todas as minhas bonecas costumavam usar vestidos vermelhos. Os ursos de
pelúcia usavam fitas vermelhas. E eu usava roupas vermelhas para
combinar. Eu era como uma cor forte e intoxicante. Parei em frente dos
cabides que guardavam meus uniformes escolares. Empurrei alguns para o
lado até encontrar a roupa que estava procurando. Era um vestido
vermelho sem mangas com vários pontos pretos. No meio tinha uma fita
preta que amarrava nas coisas. Puxei do cabide e o estiquei no ar.
”Você
lembra desse? Eu estava usando ele quando te conheci a três anos atrás.
Você provavelmente não se lembraria, vocês meninos são tão esquecidos.
Hmmm... será que ainda cabe? “Desprendi os botões de trás e o deslizei
lentamente pela minha cabeça. “Um pouco apertado, mas ainda poderia
usa-lo. Apenas pra você.” Recolhi os cabides e avancei pelo porão
desviando das torres de caixas.
“Lembra
do dia em que nos conhecemos? Foi a três anos atrás, o primeiro dia de
aula. Meu primeiro dia na escola pública. Eu não conhecia uma única
alma. E então eu vi você. Você estava usando uma camisa azul abotoada e
calça caqui. Você estava tão bonito. “Parei na caixa marcada com um “P”
vermelho. Retirei-a do meio das outras caixas marcadas com 18 outras
letras vermelhas. Segurei-a e segui mais um pouco pelo porão.
“Eu
não conseguia tirar os olhos de você. Você estava tão lindo. Seu cabelo
loiro estava penteado para o lado, seus olhos verdes e brilhantes
cheios de excitação quando viu seus amigos. Você estava tão cheio de
vida, tão cheio de alegria! Eu tinha que falar com você. Eu tinha que
ser sua amiga. Eu sabia que você me trataria diferente dos outros.”
Agora eu estava encarando uma parede de tijolos empoeirada, coberta de
lama seca. O fim do porão. Eu não poderia mais avançar. “Oh! Não há para
onde ir…a não ser para baixo.”
Peguei
a pá que estava encostada na parede. Eu a tinha deixado ali quando
tinha apenas cinco anos, apenas no caso de precisar dela. E eu sempre
precisei dela, em certos dias. Pus a caixa no chão e virei para a
direção que vim. Encostei minhas costas na parede e comecei a avançar,
pisando calmamente, contando cada passo com uma letra como eu sempre
fazia.
“A.
B. C. D. E. F. G. H. I. J. K. L. M. N. O…P!” Desenhei um “x” com a sola
do meu sapato no chão sujo. Dei um passo para trás e cravei a pá no
local marcado.
“Todas
as garotas da classe achavam você lindo. Era um menino tão bonito,
Perfeito Patrick era como te chamavam. Falavam que se você usasse um
vestido se passaria facilmente por uma garota. Não. Você era muito lindo
para ser uma garota.” A terra embaixo dos meus pés ficava cada vez mais
úmida enquanto eu cavava mais a fundo. O solo endurecido logo se tornou
lama, deixando mais fácil para cavar. Bem mais fácil pra chegar ao que
eu queria.
“Ate
o final do dia eu ainda não tinha dito nada a você. Nenhuma palavra.
Isso era inaceitável se quer saber. Então quando vi você caminhando pela
mesma direção da minha casa, decidi andar com você. Oh nos éramos
perfeitos! Éramos como duas ervilhas em uma vagem. Você gostava de azul e
eu de vermelho. Eu gostava de gatos, mas você era alérgico. Sua comida
favorita era pizza, mas eu era intolerante a lactose. Nos daríamos muito
bem!”
THUD.
A pá tinha atingido alguma coisa. Parei e joguei a pá para fora do
buraco que tinha cavado ao redor de mim. Me ajoelhei e comecei a retirar
a terra que estava me impedindo de ver o que queria.
“Quando
chegamos a minha casa convidei você para entrar e brincar. E você
entrou, então lhe mostrei o meu quarto. Mas quando você viu minhas
bonecas, minhas lindas bonecas sem cabeça... você me chamou de louca.
Uma louca! Como todos os outros! Você não era legal e gentil como todos
falavam. Você era feio! Você era feio e ameaçador! Como todos os outros!
O mundo não precisava de pessoas como você. Você tentou fugir. Tentou
escapar… como os outros. Mas você… você tropeçou. Isso mesmo você
tropeçou e caiu em cima do meu cavalo de balanço. Você caiu quatro
vezes. Não tinha nada que eu poderia fazer.” Finalmente alcancei a caixa
de madeira. Sai do buraco e peguei a caixa com o “P” vermelho. Abri e
retirei uma série de jornais sobre um garoto de doze anos desaparecido.
Então desci outra vez no buraco para abrir a caixa de madeira. Olhei
para a imagem do garoto de cabelo loiro e olhos verdes na foto do jornal
e então para o conteúdo da caixa de madeira. A maior parte do cabelo já
tinha desaparecido agora. Os olhos tinham sido comidos pelos vermes. A
pele que ainda não tinha apodrecido estava murcha, quase expondo os
ossos. Eu sorri.
“Não
está tão bonito agora não é?” Fiquei em pé junto da caixa, olhando para
os jornais em minha mão e de volta para os restos na caixa. Fechei a
caixa de madeira, pus os jornais de volta na caixa com o “P” e enchi o
buraco outra vez. Quando acabei, pus a pá em seu lugar na parede e fiz
meu caminho de volta para o outro lado do porão. Pus a caixa de volta na
estante, entre a caixinha com um “O” e a outra com um “Q”. Fui para os
cabides e retirei o vestido, pondo-o de volta no lugar entre as outras
roupas vermelhas. Pulei sobre a pilha de brinquedos velhos e voltei para
a escada. Segurei a corrente que tinha usado para ligar as luzes a
apenas uma hora atrás. Desliguei as luzes e subi as escadas.
“Boa noite Patrick. Vejo você no próximo ano.”
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